Ainda sinônimo de rainha de bateria, Luma de Oliveira fala de idade, de feminismo e da relação com o ex, Eike Batista

No último fim de semana, em um vídeo da cerimônia de apresentação das rainhas de bateria das escolas de samba do Grupo Especial, na quadra da Mangueira, elas pareciam súditas de Luma de Oliveira, de 55 anos, fora da Avenida há 11, que participou da festa a convite das “meninas”, como as chama. De salto alto e vestido curto azul, a ex-rainha, que já se ajoelhou com ritmistas e usou coleira com o nome do ex-marido, o empresário Eike Batista, sambou, sorriu, roubou a cena. Longe do palco, Luma também gosta de azul. Essa é a cor do casarão dos tempos de casada que ainda ocupa no Jardim Botânico com o filho Olin, de 24 anos. Thor, de 28, que está noivo, mora na mesma rua. “Somos muito unidos. Nossa amizade forma uma rede de proteção”.

A rede os protege do “choque’’, da “surpresa’’. Assim Luma se refere às “confusões’’ de seu ex, que chegou a ser preso pela Lava-Jato em agosto do ano passado — Eike está solto e tenta negociar uma delação premiada. “É um estresse que sobra para mim. Esse de agosto foi um divisor de águas. Pensei: ou você se desespera ou vira uma rocha. Melhor ser rocha’’, diz ela, que teve os bens bloqueados por três meses.

Hoje, Luma se dá “o direito de não fazer nada’’. Afirma se sustentar com o dinheiro que ganhou ao longo da vida: “Sempre tive hábitos simples’’. Gosta de ver séries e filmes. O último foi “História de um casamento’’, de Noah Baumbach, sobre a separação de um casal. Está solteira desde julho. Não quer casamento, mas sente falta de romance. Neste carnaval, pretende se jogar no seu “grande amor’’, a Sapucaí. Vai dar uma passada em camarotes, mas pretende ver os desfiles de perto, da frisa que sempre compra. Nesta entrevista, Luma fala de plásticas e do feminismo que puxou sua orelha nos tempos de coleira: “Acho as conquistas das mulheres maravilhosas. Mas a liberdade tem que ser para fazer o que a gente quiser’’.

Em sua casa, Luma de Oliveira fala sobre sua relação com o carnaval
Em sua casa, Luma de Oliveira fala sobre sua relação com o carnaval Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Como é ter 55 anos?

A idade, para mim, não é em relação ao físico. Não quero ter 55 anos com cara de 30. Quero maturidade emocional, paciência, conhecimento, equilíbrio.

Você já fez plástica?

Depois que eu tive os dois meninos, botei silicone e fiz lipo, que não adiantou. Também mexi no nariz. Não vou falar que foi desvio de septo. Não tinha harmonia, e beleza, para mim, é proporção. Nunca botei boca. Botox? Já, mas não gostei. Dou muita risada. Então a boca dizia alegria, e o olho, estático, não dizia nada.

O que faz para equacionar idade e aparência?

Ando de bicicleta na Lagoa, caminho na areia fofa do Arpoador, faço musculação quatro vezes por semana. Tomo umas 14 vitaminas. Não sou noturna, não fumo e como direito. O que me prejudica, às vezes, é que tenho um pouco de estresse.

Que tipo de estresse?

Um estresse que independe de mim, mas sobra para mim. Acho que esse último choque, como eu vou dizer… Essa surpresa, esse acontecimento, que foi em agosto e não se resolveu até hoje, foi um divisor de águas. Eu já tinha passado uns três antes. Então, pensei: ou você se desespera ou vira uma rocha. Melhor ser rocha.

É difícil ser rocha?

Não é fácil. Sou muito consciente do mundo real, do país que a gente vive, das nossas histórias, das histórias que meus filhos vão passar. Gosto de ajudar quem está ao meu lado. Não estou falando financeiramente, mas de apoio emocional, psicológico. Mas há fases em que não fico bem.

Nessas fases, o que você faz?

Procurei psicólogo umas três vezes na vida, por problemas que não consegui digerir sozinha. O que me ajuda muito é a parte espiritual, procurar um estado de espírito mais elevado para ajudar meus filhos. Temos uma relação muito boa. Somos muito unidos. Nossa amizade forma uma rede de proteção.

Você desfilou pela última vez em 2009, pela Portela. Por que parou?

Ciclos se fecham, e eu cumpri meu papel. Estava de bom tamanho.

Qual é esse tamanho?

O carnaval foi mudando muito, e a rainha de bateria virou uma embaixadora da escola. As responsabilidades começam no meio do ano, e minha vida tem uns percalços. Já aconteceu de, em janeiro, acontecer uma surpresa desagradabilíssima. Como eu ia para a quadra sambar passando por aquilo? Eu não sou fria. Não sou feita de escaninhos.

Luma como rainha de bateria da Tradição, em 1998
Luma como rainha de bateria da Tradição, em 1998 Foto: André Arruda

Como arruma os escaninhos?

Sou equilibrada, otimista, rezo para ter força. Isso na parte teórica. Meus meninos aprenderam a ter essa confiança de elevar o pensamento. Às vezes, sem aviso, a onda chega. Meu nome já foi envolvido, mas, graças a Deus, depois de três meses, viram que foi um equívoco. Mas eu acordei um dia e tinham bloqueado tudo meu. Fiquei sem chão.

Você fala em “percalço”. Refere-se à prisão de Eike, em agosto de 2019, como choque. Prefere não falar o nome dele?

Não estou credenciada e não conheço a história. Sou ex-esposa, mãe dos filhos. Falo o que aconteceu com eles, que tiveram os bens bloqueados.

Você os sustenta?

Eu ajudo.

Você está trabalhando?

Eu me dou o direito de não fazer nada. Guardei dinheiro desde o primeiro trabalho. Também dos meus tempos de modelo, das campanhas que fiz durante o casamento. Sempre tive hábitos simples.

Você fala com o Eike?

Falo, mas somos ex…

Você acompanha a situação da cidade e do país?

Nossa cidade está muito carente de cuidados. Acho que falta emprego e existe uma distância econômica grande. Deveria ser mais homogênea.

Você faz algo por isso?

Tinha uma tia freira que dizia que a grande bondade é silenciosa. As pessoas ajudam com tempo, conhecimento ou dinheiro. Eu uso meu tempo.

Em 1992, você foi vítima de um assalto. A violência mudou seus hábitos?

O Rio é uma cidade para sair a pé. Eu não faço isso depois de uma certa hora. Mas nunca pensei em me mudar. Ainda temos outras violências, como encostas sem obras, galerias que entopem…

O corte de verba do prefeito Marcelo Crivella para as escolas de samba foi uma violência?

Acho que é preciso ter verba. Se é preciso um estudo para ser menos… Mas a Avenida e os blocos fazem parte do nosso patrimônio. Atraem turistas, geram empregos.

O prefeito alega que é uma festa particular e critica a lisura do dinheiro das escolas.

Também gostaríamos de saber para onde vão todos os nossos impostos…

Quais foram seus momentos mais marcantes na Sapucaí?

O ano em que a bateria da Viradouro se ajoelhou, em 2001. Foi emocionante ser enredo da Estácio no grupo de acesso, em 2012. E teve o ano da pantera, em 1998, Tradição… Até hoje as pessoas me mandam fotos delas com o meu nome ou o do parceiro na coleira.

Luma se ajoelha na Avenida no desfile da Viradouro de 2001
Luma se ajoelha na Avenida no desfile da Viradouro de 2001 Foto: Marizilda Cruppe

Como você vê isso em tempos cada vez mais feministas?

Era uma brincadeira. Não imaginava que ia mexer com os padrões de feministas. Aquela coleira era libertadora. Uma mulher submissa não estaria com um maiô sexy, de bota, sambando na frente de 300 ritmistas. Acho todas as conquistas maravilhosas. E ainda falta muito. Mas a liberdade tem que ser para fazer o que a gente quiser.

Você se considera feminista?

Eu me considero uma mulher livre. Tive minha independência econômica aos 17, namorei quem eu quis, casei com quem eu quis. Não sou presa a rótulos.

Seus namoros deram o que falar. O jogador Renato Gaúcho, o bombeiro Albucacys… Você está solteira?

Desde julho. Depois do fim do casamento, em 2004, tive três relacionamentos. Não sinto falta de casar. Sinto falta de romance, que só tem nas primeiras semanas (risos)…

Você acha que se preserva mais nos relacionamentos?

Sempre fui seletiva. Tenho preocupação em ter ao meu lado boas pessoas.

Você acha que o posto de rainha de bateria hoje é ocupado como meio de projeção?

Elas não entram ali com esse propósito. Estão porque gostam. Caso contrário, não iam convencer. Eu também nunca precisei da Sapucaí para ter projeção. Gravei duas novelas, fui casada com um homem que tinha muito dinheiro. Era felicidade pura. E acho que dava para ver no meu rosto.

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