Brasil não entendeu a modernidade da França e mereceu perder em 1998

“Se as pessoas soubessem o que aconteceu, ficariam enojadas”. O brasileiro é especialista em criar realidades alternativas para não sofrer. No futebol, nunca o outro time é melhor. A Seleção sempre perde para ela mesma. Foi assim na derrota para a França na Copa de 1998, reprisada pelo SporTV na Faixa Especial dessa sexta (03), e é em qualquer derrota na Copa do Mundo.

Mas se as pessoas soubessem o que realmente aconteceu, o Brasil seria um país melhor e teríamos aceitado o fato de que a França jogou muito mais. De que tinha um time melhor e mais organizado. Sem devaneios sobre a convulsão de Ronaldo, Gunther Schweitzer ou a Nike. Apenas a verdade, aquela que o jogo te mostra e nem sempre sabemos ver: o Brasil mereceu perder. E abaixo você vai entender o porquê.

Melhores momentos: Brasil 0 x 3 França pela final da Copa do Mundo de 1998

Melhores momentos: Brasil 0 x 3 França pela final da Copa do Mundo de 1998

Zidane anula Dunga com a ajuda do trio de frente

Como você leu aqui, a seleção de Zagallo tinha um buraco entre o meio e o ataque. Dunga era o único que circulava pelo campo para resolver os problemas na construção das jogadas. A França começou a ganhar o jogo anulando a saída do capitão. Zidane, Djorkaeff e Guivarc´h se alinhavam e criavam uma espécie de paredão para Dunga, impedindo a conexão com César Sampaio e Leonardo – veja a imagem.

Saída de bola foi anulada pelo trio de ataque — Foto: Leonardo Miranda

Saída de bola foi anulada pelo trio de ataque — Foto: Leonardo Miranda

Os franceses estudaram tanto o Brasil que sabiam que Dunga era inteligente e podia sair dessa pressão. Então Karembeu, Petit e Deschamps formaram outro paredão. Se Dunga conseguisse um lançamento, os três volantes franceses conseguiam desarmar ou fazer uma falta e impedir que César Sampaio ou Leonardo (perdido na final) levassem a bola até Rivaldo ou Ronaldo – veja a imagem.

César Sampaio e Leonardo não conseguiam jogar por causa da marcação francesa — Foto: Leonardo Miranda

César Sampaio e Leonardo não conseguiam jogar por causa da marcação francesa — Foto: Leonardo Miranda

Trio de volantes anula os laterais com compactação inédita

Aimé Jacquet sabia que, além de Dunga, o Brasil sempre foi conhecido pela força nas laterais. Leandro e Júnior, Branco e Jorginho e…. Roberto Carlos e Cafú. Para evitar que eles tivessem espaço na saída de bola e chegassem com velocidade na frente, o técnico fez uma pequena “maldade”: os dois volantes do 4-3-2-1 francês tinham a função de correr e marcar os dois laterais na saída de bola. Exatamente com Karembeu faz com Roberto Carlos aqui.

Karembeu, volante no 4-3-2-1 francês, avança até a defesa para marcar Roberto Carlos — Foto: Leonardo Miranda

Karembeu, volante no 4-3-2-1 francês, avança até a defesa para marcar Roberto Carlos — Foto: Leonardo Miranda

Volantes subindo até o lado do campo? E o meio-campo, com quem fica? Oras, fechar espaços é uma ação coletiva. Não uma ação individual. Veja que Zidane – isso mesmo, o camisa 10 mítico que precisa descansar para marcar como ainda se pensa no Brasil – cobria a subida de Kerembeu e a França novamente formava dois paredões na saída de bola do Brasil.

O mesmo acontecia no outro lado, com Petit de olho em Cafú. Olha lá o Zidane voltando e o Deschamps marcando Leonardo. Veja a compactação da França e a linha de defesa já marcando por zona. Impossível não lembrar do Liverpool de Klopp, outro time que coloca os volantes para marcar o lateral e se compacta para evitar inversões de jogo.

Nenhum time colocava nove jogadores em tão pouco espaço em 1998. A França era muito moderna e mudou o futebol europeu — Foto: Leonardo Miranda

Nenhum time colocava nove jogadores em tão pouco espaço em 1998. A França era muito moderna e mudou o futebol europeu — Foto: Leonardo Miranda

Movimentação rápida de Zidane e dos volantes confunde a seleção

Até agora, você viu o que a França fazia sem a posse de bola. Não pense que com ela era só contra-ataque. Os Blues tinham um sistema extremamente rápido, de toques curtos e manutenção de bola. Três jogadores tinham um papel fundamental para criar espaços na defesa do Brasil. O primeiro era Zidane. Ele saía da frente e circulava pelo campo inteiro iniciando as jogadas junto de Deschamps. O lado esquerdo era forte, com Thuram e Zidane sempre ocupava espaços vazios para pegar Dunga ou Aldair desprevenidos ou marcando Guivarc´h, que arrastava os zagueiros.

Zidane circulava por todo o campo e Guivarc´h abria espaços — Foto: Leonardo Miranda

Zidane circulava por todo o campo e Guivarc´h abria espaços — Foto: Leonardo Miranda

Os outros eram Karembeu e Petit. Muito antes de Henderson e Wijnaldum, eles funcionavam como atacantes com a posse de bola. Avançavam até mais que o próprio centroavante e procuravam espaços nas costas dos volantes para receber. Mais importante: eles eram a opção de passe para Djorkaeff e Zidane pensarem e criarem. Lembra que o passe é uma interação? Que não adianta ser um camisa 10 se ninguém está na frente para receber? A solução francesa foi colocar os volantes para povoar o meio numa época que quem fazia isso normalmente eram meias – no Brasil, César Sampaio jamais avançava.

Completos, Petit e Karembeu ajudavam a armar e atacar.  — Foto: Leonardo Miranda

Completos, Petit e Karembeu ajudavam a armar e atacar. — Foto: Leonardo Miranda

Você consegue entender o quanto a França estava à frente de seu tempo 1998? Ninguém marcava saída de bola com os meias. Ninguém tinha dois volantes que avançavam. Ninguém jogava só com um centroavante na frente – e ainda de “mentira”, porque Guivarc´h se movimentava o tempo todo. Ninguém fazia o volante marcar o lateral. Foi um nó tático imenso. Roberto Carlos e Cafú, talvez os dois melhores laterais do Brasil, não jogaram. E no banco estava simplesmente o homem que inventou a posição de lateral pedindo para Nilton Santos avançar em 1998 e depois fazendo Carlos Alberto Torrer chegar na área em 1970. Que banho, Zagallo…

Bola parada, o problema – sempre ela

A França dominou por completo o primeiro tempo. O Brasil chegou uma vez com perigo, numa escapada de Roberto Carlos, e só. Talvez essa superioridade seja tão diminuída pelos brasileiros porque dois gols foram fruto da bola parada, que é um momento diferente do jogo. Nela, os erros individuais ficam mais aparentes. Então é fácil culpar alguém. Mas pensa um pouco: se alguém bate uma falta ou escanteio, é porque o time estava atacando por bastante tempo até produzir a falta.

O Brasil marcava individualmente a entrada da área e Júnior Baiano e Cafu faziam uma “parede” no primeiro pau, no lado do escanteio. Só que a França colocava Thuram e Zidane para ficarem fora da área. Eles tinham como função se aproveitarem da bagunça ou pegar um rebote. Os dois estão livres no primeiro gol. O erro é de Leonardo, que está sem marcador, quando deveria procurar alguém livre para colar e acompanhar.

Leonardo não marca ninguém e Zidane chega sozinho para abrir o placar — Foto: Leonardo Miranda

Leonardo não marca ninguém e Zidane chega sozinho para abrir o placar — Foto: Leonardo Miranda

O segundo gol é um erro individual de Dunga. Logo ele, que fez uma Copa absurda. Segundo relatos, Dunga ficou irritado com a falha de Leonardo e disse que marcaria Zidane nas bolas paradas Ele foi atropelado pelo francês, que novamente chegou de surpresa dentro da área.

Zidane atropela Dunga e faz 2 a 0 antes dos times irem para o intervalo — Foto: Leonardo Miranda

Zidane atropela Dunga e faz 2 a 0 antes dos times irem para o intervalo — Foto: Leonardo Miranda

Depois de tudo isso, você ainda vai acreditar em teorias da conspiração ou narrativas mágicas? O Brasil foi atropelado na bola. Foi superado por um adversário que sabia o que fazer e quando fazer. Que preenchia espaços de forma rápida e inteligente. Zagallo levou talvez o maior nó tático na carreira. Uma dura lição que o Brasil, vinte e dois anos depois, insiste em não entender: de nada adianta ter os melhores jogadores se não existe uma ideia de como aproveitar o talento deles.

Não existe qualidade técnica sem qualidade tática. O Brasil continua a produzir grandes jogadores e menosprezando o tempo e os processos que o futebol e os craques precisam para se tornar uma equipe. Um dia a gente aprende.

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