Detentas no interior de SP buscam nova chance para voltar à sociedade: ‘Não somos impedidas de sonhar’

Eliane cumpre pena de mais de 20 anos na penitenciária de Pirajuí  — Foto: Marília Moraes / G1

Eliane cumpre pena de mais de 20 anos na penitenciária de Pirajuí — Foto: Marília Moraes / G1

Em um ambiente de segurança máxima, muros altos, grades e cercas elétricas a esperança, os sonhos e a delicadeza se misturam. Na Penitenciária Feminina de Pirajuí a rotina que envolve trabalho, artesanato e a convivência com um passado manchado pelo crime é uma realidade em comum entre todas as presidiárias.

Ser mulher em um ambiente de restrição da liberdade tem alguns detalhes que não passam despercebidos. No local, que abriga 830 detentas, atividades como cursos de artesanato, conclusão do ensino fundamental e médio e faculdade são oferecidas para reinseri-las socialmente.

De acordo com a Diretora Técnica da prisão, Graziella Costa, o humanização é a chave para manter a fluidez da unidade.

“Acredito na ressocialização e no tratamento humanizado para que o regime possa ser cumprido. Buscamos manter um ambiente agradável mesmo sendo uma penitenciária”, afirma.

Detentas tem a oportunidade de trabalhar nas dependências da penitenciária de Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

Detentas tem a oportunidade de trabalhar nas dependências da penitenciária de Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

G1 esteve na unidade que, tem 70 detentas universitárias. Elas cursam gestão de processo através de ensino a distância oferecido por uma faculdade da região. A ideia, inclusive, foi sugerida pelas próprias detentas.

“A ideia tem dado certo e funciona como uma escola. Um pavilhão estuda pela manhã, outro no período da noite. Elas ficaram entusiasmadas e sugeriram poder estudar. Fazem provas, são avaliadas nas atividades, é uma faculdade mesmo”, explica a diretora.

“Quero esquecer o mundo do crime”

Luciana concluiu o ensino médio na Penitenciária de Pirjuí, e hoje, cursa Gestão de Projetos — Foto: Marília Moraes/G1

Luciana concluiu o ensino médio na Penitenciária de Pirjuí, e hoje, cursa Gestão de Projetos — Foto: Marília Moraes/G1

Condenada a 19 anos em 2010 por homicídio, Luciana de Souza Javarezzi está na penitenciária de Pirajuí desde 2013.

Uma maquiagem especial foi escolhida para receber a equipe de reportagem do G1. “Eu mesma fiz. Cursei maquiagem aqui dentro [da cadeia]. Recebo produtos da minha família e também compro por meio do site que nos disponibilizam. Adoro me maquiar.”, conta.

“Nenhuma cadeia me aceitava. Aqui, Deus agiu e fui acolhida. Hoje sou outra pessoa, a antiga Luciana está morta”, comenta.

Dia da Mulher: detentas de penitenciária feminina estudam e sonham em se reinserir na sociedade — Foto: Marília Moraes/G1

Dia da Mulher: detentas de penitenciária feminina estudam e sonham em se reinserir na sociedade — Foto: Marília Moraes/G1

Com 31 anos atualmente, Luciana precisou deixar a filha de 2 anos na época com a avó para ser criada. Dez anos depois, após ter passado pelo presídio de Tremembé, em São Paulo, Luciana conta que deseja esquecer o passado.

“Nenhuma cadeia me aceitava e eu me sentia um bicho. Dei trabalho, fiquei no castigo da cadeia, usei drogas, achei que eu não tinha mais jeito. Foi quando a Dona Graziella me aceitou aqui [na cadeia]. Ela sentou comigo e me explicou que estava me dando uma oportunidade. Eu não desperdicei”, explica.

A pena dela está prevista para acabar em breve, e Luciana já faz planos. “Tenho que focar em mim, esquecer do que eu passei. Acredito em Deus, pois foi ele que me deu essa oportunidade de recomeçar. Ao sair, quero cursar necromaquiagem para maquiar os mortos”, conta.

Mãe e parceira de cela

Mãe e filha são parceiras de cela na Penitenciária Feminina de Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

Mãe e filha são parceiras de cela na Penitenciária Feminina de Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

Na penitenciária, mãe e filha cumprem pena juntas pelo crime por participarem de uma organização criminosa. Maisa Prando, de 27 anos, foi condenada a 25 anos de prisão em 2010. Já a mãe, Eliane Cristina de 46 anos, foi condenada a 24. As duas não quiseram dar detalhes do crime.

“Fomos presas uma seguida da outra, em 2010. Antes não tínhamos tanto contato de mãe e filha, foi aqui dentro que nos aproximamos. Hoje, minha mãe é meu porto seguro”, conta Maisa.

Monitora da escola do ensino fundamental e médio, que funciona na cadeia, Maisa também cursa gestão de processos e conta que mantém a vaidade. “Pinto o cabelo, faço a sobrancelha e me mantenho arrumada. Temos limitações, mas não somos impedidas de sonhar”, conta.

Determinação foi a palavra escolhida para representá-la no momento. “Precisamos focar em nós mesmas. Não é porque estamos aqui dentro que não podemos evoluir. Há muitas mulheres fortes aqui dentro”, conta.

Maisa Prando foi condenada há 24 anos de prisão em Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

Maisa Prando foi condenada há 24 anos de prisão em Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

Já Eliane, com pena prevista para ser concluída em 2034, é adepta do crochê. “Aprendi com uma antiga amiga de cela. Minhas produções são vendidas em uma feira que a penitenciária promove e o dinheiro vem todo pra mim. Faço sob encomenda também”, conta.

Além das aulas de artesanato que pratica, Eliane conta que já cursou técnico de marketing e hoje cursa a faculdade. Casada recentemente, ela faz planos pra quando ganhar a liberdade.

“Conheci meu marido por cartas. Na época, ele também estava preso. Casamos quando eu tive a saidinha. Hoje ele mora na nossa casa e temos planos para quando eu sair”, conta.

Eliane aprendeu a crochetar com uma amiga de cela, e hoje, recebe encomendas dentro da cadeia — Foto: Marília Moraes/G1

Eliane aprendeu a crochetar com uma amiga de cela, e hoje, recebe encomendas dentro da cadeia — Foto: Marília Moraes/G1

‘Saudades da minha família’

Edlayna faz as unhas e conta que não sai da cela sem maquiagem — Foto: Marília Moraes/G1

Edlayna faz as unhas e conta que não sai da cela sem maquiagem — Foto: Marília Moraes/G1

Edlayna Silva, de 22 anos, natural do Maranhão, foi condenada a 5 anos de prisão em 2016, ao ser flagrada pela Polícia Rodoviária transportando drogas na bagagem, quando havia completado 18 anos.

“Eu estava indo de Foz do Iguaçu para São Paulo e aceitei transportar a mercadoria de uma colega. Dentro havia droga, mas eu não sabia. Meu mundo desabou, pois eu era inocente. Foi um erro que me custou cinco anos”, conta.

Com previsão de ganhar a liberdade em 2021, Edlayna conta que saiu da cidade natal para procurar oportunidade.

“Eu sempre fui apegada à minha família. Sinto muita falta, choro todos os dias. Nunca fiquei mais de uma semana longe da minha mãe. Quando sai de casa para procurar emprego, meu pai disse que, por ele, eu nem voltaria mais, e não voltei mesmo”, comenta.

"Temos vários pincéis para desenhas nas unhas. Uma amiga detenta é manicure", conta Edlayna — Foto: Marília Moraes/G1

“Temos vários pincéis para desenhas nas unhas. Uma amiga detenta é manicure”, conta Edlayna — Foto: Marília Moraes/G1

De batom rosa, cabelo hidratado e unhas feitas, Edlayna não mede esforços para cuidar da vaidade.

“Não deixo de ser mulher aqui. Recebo mercadorias, compro também e me cuido. Não saio da cela sem maquiagem. Quando acaba, uma empresta pra outra, e assim vamos. Minha mãe sempre me manda rímel e batom”, revela.

Funcionária da cozinha e da copa da penitenciária, Edlayna conta que adora cozinhar. “Sempre gostei, aprendi em casa. É bom, pois ocupa a cabeça e evita de pensar em coisas ruins”, finaliza.

Edlayna é funcionária da copa e cozinheira da Penitenciária Feminina de Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

Edlayna é funcionária da copa e cozinheira da Penitenciária Feminina de Pirajuí — Foto: Marília Moraes/G1

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