Projeto garante apoio psicológico a jogadores afetados com falta de rotina em meio à pandemia

Treinos, concentrações e jogos. Essa é a rotina habitual de um jogador de futebol profissional. Porém, em meio à pandemia do novo coronavírus, o ritmo considerado normal tem sido afetado. Não é apenas a parte física que fica comprometida com a baixa intensidade de atividades, mas, sim, uma dificuldade ainda maior pela busca do equilíbrio mental.

Diante disso, o projeto criado pela AV Assessoria Esportiva, de Florianópolis, garante apoio psicológico a jogadores. Os responsáveis pela empresa observaram, a partir do período de paralisação dos campeonatos, em março, a importância de colocar um profissional especializado em saúde mental à disposição dos clientes para assegurar equilíbrio e conforto para lidar com o cenário atual.

– Foi uma mudança drástica (na rotina dos atletas). Observamos que era necessário dar o suporte nessa área da psicologia. Eles passaram de uma rotina totalmente intensa para uma diferente do que estão habituados, que é o isolamento, alguns até sozinhos em outros países. Entendemos a necessidade de agregar esse profissional e trabalhar a saúde mental dos jogadores. Foi algo acertado, pois o retorno foi bastante positivo – disse um dos sócios da empresa, Gustavo Neves.

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Psicólogo formado há 12 anos, Filipe Stahelin é o responsável pelo atendimento e, desde então, tem elaborado dinâmicas individuais ou em família, além de exercícios que ajudam na diminuição da ansiedade e no aspecto emocional diante do isolamento social.

– O objetivo do projeto é olhar para o lado humano do atleta, que tem uma rotina intensa, com viagens, calendário pré-determinado, etc… Com a questão da pandemia, houve uma mudança brusca em cima do planejamento deles, e muitos têm prejuízos psicologicamente. Trabalhamos a escuta com o atleta, ouvir ele, entender a ansiedade, fazer dinâmica individualizada trabalhando o autoconhecimento, saber como enxerga o cenário e quais são as dúvidas – destacou.

Judson em atendimento online com Filipe Stahelin — Foto: Arquivo Pessoal

Judson em atendimento online com Filipe Stahelin — Foto: Arquivo Pessoal

Filipe considera positiva a experiência até o momento, uma vez que os jogadores deram respostas satisfatórias em relação às dinâmicas propostas. Para ele, o projeto pode até mesmo ser continuado após a retomada das atividades presenciais e se tornar um elemento a mais dentro da rotina.

– Os atletas entenderam e refletiram sobre isso. Tiveram boa abertura para mostrar a eles o processo. Muitos estão mantendo a rotina de treinos físicos em casa. Esse paralelo dentro da psicologia é importante.

– Sabemos que corpo e mente são vinculados. Os atletas ganham com isso no momento. Foi um laço bem estreitado. Acredito que essa situação possa ser levada mais adiante, e o trabalho psicológico tende a fluir de maneira bem positiva – completou Filipe.

Jogadores já atendidos pelo projeto

Com quase 100 clientes na empresa, a AV Assessoria Esportiva formou grupos para garantir atendimento a todos e não comprometer as consultas virtuais. Atualmente no San José Earthquakes, dos Estados Unidos, o volante Judson, que em 2018 conquistou o acesso na Série B do Brasileiro com o Avaí, foi um dos jogadores que passaram pelo acompanhamento psicológico.

– O Filipe é um cara competente. Tenho conversado com ele há pelo menos 20 dias, isso tem dado um suporte muito grande. O papo é diário e procura saber sobre meus pensamentos e também a minha família. Passou algumas atividades para controlar a ansiedade neste momento de isolamento. É uma iniciativa válida. Ele é um baita profissional. No fim disso tudo, será muito positivo essa questão – destacou Judson.

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João Paulo, atualmente na Ponte Preta, é um dos atendidos pelo projeto — Foto: Álvaro Júnior

João Paulo, atualmente na Ponte Preta, é um dos atendidos pelo projeto — Foto: Álvaro Júnior

Quem também está no primeiro grupo acompanhado por Filipe Stahelin é outro ex-jogador do Avaí, o meia João Paulo. Atualmente na Ponte Preta, ele divide o isolamento social ao lado da esposa e do filho de 6 anos.

– O psicólogo me ajudou muito a entender a situação e o momento que a sociedade está passando. Nós jogadores, atletas profissionais, não estamos acostumados a ficar tanto tempo sem jogar. Agora, eu entendo que é importante ficar sem isso por conta da minha saúde, dos meus familiares e da população – disse.

Marcos Rossetto mantêm isolamento social em Atlanta — Foto: Arquivo Pessoal

Marcos Rossetto mantêm isolamento social em Atlanta — Foto: Arquivo Pessoal

Natural de Santo Amaro da Imperatriz, cidade da região de Florianópolis, o também meia Marcos Rossetto recebe suporte psicológico em Atlanta, nos Estados Unidos. Diferente de Judson e João Paulo, o jovem de 23 anos está sozinho na cidade onde atua pelo time de mesmo nome, o que aumenta o nível de ansiedade para a retomada da rotina.

– O Filipe está me ajudando muito em relação à pandemia, onde não podemos sair de casa. Ele me dá um suporte, atenção especial. Como estou sozinho, para mim é mais difícil ficar longe da família e amigos. Ele me passa algumas dinâmicas, trabalhos que faz melhorar a cabeça e aumentar nosso astral, isso tem sido fundamental. Espero que logo tudo passe e volte ao normal – disse Rossetto, que no Brasil defendeu o Athletico.

Até a noite de quinta-feira, no mundo, os casos do novo coronavírus ultrapassvam os 2,7 milhões. Os Estados Unidos, onde vivem Judson e Rossetto, lideram o ranking dos mais afetados com mais de 868 mil confirmações e 49 mil óbitos. O número de mortes no planeta em decorrência da Covid-19 é de pouco mais de 189 mil.

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